Dois concertos em Paris mostram um Brasil entre séculos e sons

Concertos no tradicional Teatro Châtelet revelam um Brasil entre séculos, vozes e sons — da herança barroca às narrativas contemporâneas de resistência e identidade.

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Maestro Ricardo Bernardes e o Ensemble Americantiga Arquivo pessoal
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No âmbito da Temporada Cruzada França-Brasil 2025, o Teatro do Châtelet, em Paris, recebe nos dias 5 e 6 de julho dois concertos que propõem uma imersão sensível e inovadora na diversidade da música brasileira. Sob a direção artistica e musical do maestro brasileiro Ricardo Bernardes, radicado em Portugal, os espetáculos Alma Brasileira e Marias do Brasil celebram três séculos de história, das raízes barrocas às vanguardas do século XXI, cruzando narrativas de resistência, identidade e renovação.

As apresentações idealizadas pelo Ensemble Americantiga e produzidas pela Janus Arts & Culture e pela Giano Arts Management, contam com apoio do Instituto Guimarães Rosa e da Embaixada do Brasil em Paris. Para Ricardo Bernardes, trata-se de uma ocasião simbólica: “São os dois maiores concertos de música clássica brasileira nesta temporada. Celebramos não só os 30 anos do Americantiga, mas também um Brasil plural, em que o passado dialoga com o presente”, afirma em entrevista ao PÚBLICO Brasil.

O concerto do dia 5, intitulado Alma Brasileira, traz a renomada pianista Cristina Ortiz, que aos 75 anos retorna aos palcos europeus com um repertório que espelha o encontro entre o Brasil colonial e a modernidade. A estreia de uma obra do compositor Harry Crowl, criada a partir de temáticas barrocas, abre a programação. Em seguida, Cristina interpreta o Concerto n.º 9 de Mozart com orquestra e, após o intervalo, obras solo de Villa-Lobos, Lorenzo Fernandez e Camargo Guarnieri. A noite encerra-se com uma peça de João Guilherme Ripper inspirada no Convento de Mafra. O concerto será precedido de uma vídeo-arte com o ator em cena, Eduardo Ibraim.

“Mozart não está aqui por acaso. A primeira execução de uma ópera de Mozart fora da Europa aconteceu no Rio de Janeiro, com Don Giovanni, em 1821. É uma forma de lembrar como o Brasil sempre esteve conectado às vanguardas culturais”, explica Bernardes.

No dia 6, Marias do Brasil dá voz a duas figuras esquecidas da história lírica brasileira: Maria Joaquina Lapinha, primeira cantora negra a se apresentar no Teatro de São Carlos, em Lisboa, no século XVIII; e Maria d’Apparecida, cantora que brilhou na Ópera de Paris nos anos 1960. Com encenação de Ligiana Costa, dramaturgia de Sofia Boito e narração da atriz Camila Pitanga, o concerto encenado mistura ópera, canção popular e documentário, costurado por videografia de Vic Von Poser.

Os cantores Bruno de Sá, reconhecido soprano masculino que atua nas principais casas europeias, e Luanda Siqueira, radicada em Paris, conduzem o repertório que atravessa modinhas coloniais, obras de Villa-Lobos e trechos das Bachianas, encerrando com Chiquinha Gonzaga. “É um concerto poético-documental. Resgatamos memórias e trajetórias que merecem ser celebradas. As Marias do Brasil cantam por muitas outras vozes silenciadas”, resume a encenadora.

Combinando interpretações históricas, recursos audiovisuais e uma visão contemporânea da identidade brasileira, os espetáculos têm como pano de fundo não apenas a trajetória do Ensemble Americantiga, mas também o desejo de projetar o Brasil no coração cultural da Europa. “Paris continua a ser uma vitrine decisiva. Mostrar esse Brasil complexo, sofisticado e sensível aqui é mais do que arte, é afirmação política”, conclui Ricardo Bernardes.