Maioria entre estudantes estrangeiros em Portugal, brasileiros se integram às escolas

Alunos retornam às salas de aula depois das férias, deixam dificuldades de adaptação para trás e elogiam qualidade do ensino português. Pais e professores são fundamentais no processo de integração.

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Olívia Mezzari com o pai, Luciano, diz gostar da comida da escola, da qual estava com saudade, e das aulas de natação Arquivo pessoal
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Elizângela Noronha, que, há oito anos, deixou o Brasil para fazer doutorado em Comunicação em Portugal, tem dois filhos: José Miguel, 10 anos, e Emília, 19. Em território luso, eles sempre estudaram em escola pública. As experiências dos irmãos são diferentes. Ela chegou a sofrer preconceito em sala de aula.

O caçula está começando o quinto ano em uma escola pública de Caldas da Rainha, na região Oeste do país, para onde a família se mudou em julho de 2025. Eles viviam em Covilhã, que fica a norte, na região Centro. Já Emília passou este ano para a Escola Superior de Arte e Design (ESAD) — Politécnico de Leiria.

Segundo Elizângela, 44, o fato de Covilhã ser um lugar pequeno, ajudou o filho a se integrar mais rapidamente à escola, onde fez amizades que se mantêm mesmo com a troca de cidades. “Eles vivem conversando por videochamada, continuam amigos. Mas o José fez todo o primeiro ciclo na mesma escola. E tudo sempre correu muito bem. Era uma escola pequena”, conta ela, que vivia em Teresina, no Piauí.

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O estudante José Miguel se adaptou rapidamente à escola em Covilhã. Agora, ele frequenta um colégio em Caldas da Rainha Arquivo pessoal

Já a filha mais velha sentiu a diferença entre estudar em uma escola portuguesa e uma brasileira. E sofreu preconceito. Quando Emília chegou ao país, aos 12 anos, ouviu comentários xenófobos na escola, por ter nascido no Brasil. À época, a família estava em Coimbra, também na região central de Portugal, onde morou por quatro anos, antes de ir para Covilhã.

“Existia um preconceito contra a minha filha. Achavam que, por ser brasileira, ela já namorava. Eram coisas relacionadas à sexualidade mesmo. E ela era muito menina. Por causa disso, em alguns momentos, eu e o meu marido tivemos de ir à escola falar com os diretores e os professores”, relata Elizângela. “Mas, com o tempo, ela foi aprendendo a se defender.”

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Emília Noronha enfrentou resistência ao chegar à escola, mas superou todas as dificuldades de adaptação Arquivo pessoal

No Brasil, Emília sempre estudou em instituições privadas. Elizângela acredita que fez uma boa escolha matriculando os filhos em escolas públicas, mesmo com as dificuldades dos primeiros anos. “As cidades pequenas realmente favorecem mais à integração. Em Caldas da Rainha, ela já começou a faculdade e está adorando”, afirma Elizângela, que também elogiou o trote (que em Portugal é chamado de praxe) do ESAD. “Eles plantaram árvores, fizeram uma caminhada pela cidade. Achamos bem interessante”, ressalta.

Problema com sotaque

De Lisboa, a jovem Carol Campos, 16 anos, que está iniciando o 10º ano, começou a estudar em escola pública aos 9 anos de idade, quando chegou a Portugal com a mãe e o irmão mais velho. Ela acha o ensino bom, mas critica a falta de professores. Carol também sofreu xenofobia de uma professora, por causa do seu sotaque.

“Em todas as três escolas que eu já estudei em Lisboa, achei todas organizadas, conservadas, só que, às vezes, não há professores. Tive uma amiga que, na turma dela, não teve professor de português durante o ano retrasado todo. Por causa disso, no ano passado, eles tiveram uma hora a mais de aula de português do que o normal”, relata Carol.

Em Niterói, município do Rio de Janeiro, onde morava, ela só estudou em escolas particulares. “Mas eu acho que a escola pública de Portugal tem um nível muito parecido com algumas particulares do Brasil”, afirma.

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Carol Campos reclama da falta de professores na escola, mas se diz integrada ao modelo de ensino português Arquivo pessoal

Sobre a integração com os outros alunos, Carol não tem do que reclamar. “Fui acolhida de braços abertos”, garante. Porém, houve uma professora que criticou o sotaque brasileiro dela.

“Uma vez, ela propôs um desafio que era para a gente procurar palavras no dicionário. Quem achasse a palavra dita pela professora primeiro, podia ler o significado dela, em voz alta, na sala de aula. E eu achei, queria ler, mas a professora não deixou porque disse que, como eu tinha sotaque brasileiro, ninguém me entenderia, e mandou passar a tarefa para a minha colega”, descreve Carol.

Assim como Emília, que teve dificuldade mas hoje já come bifanas, por exemplo, sem problemas, Carol estranhou a comida servida na escola. “No início foi bem diferente, até tomar sopa, porque a gente não tem esse costume no Brasil, e também servem muito peixe, e eu não gosto tanto, mas a alimentação da escola é de boa qualidade”, frisa Carol.

Reencontro

A volta às aulas foi marcada por reencontros e muita alegria para Olívia Mezzari Luciano, 9 anos. Moradora do município de Gondomar, no distrito do Porto, a estudante gaúcha retornou na sexta-feira (12/09) ao convívio com os amigos no Centro Escolar Valbom, onde iniciou o 4º ano do 1º ciclo.

Olívia se mudou com os pais de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, para Portugal há sete anos. No regresso às atividades escolares, foi acompanhada pelo pai, André Luis Fernandes Luciano, e recebeu o carinho da turma. Apesar da festa, ela conta que não sentiu tanta falta da escola durante as férias, já que três de suas melhores amigas a visitaram em casa e compartilharam momentos juntas na praia e no mercado.

A mãe, Leticia Scheid Mezzari, destaca as diferenças entre sua própria infância no Brasil e a experiência atual da filha em Portugal. “É bem diferente do tempo em que eu era estudante. Lembro que a minha escola, no Brasil, não ficava próxima da minha casa e, nas férias, não encontrava com os colegas. Era no máximo encontrar a melhor amiga no shopping”, recorda.

Segundo Leticia, as relações também mudaram com o avanço da tecnologia. “Não nos falávamos pela internet e, hoje, sinto que não há aquela expectativa do reencontro pessoal porque eles mantêm contato para o jogo da internet. As casas são próximas da escola e os colegas são vizinhos”, acrescenta.

Qualidade do ensino

A mudança de país, há sete anos, foi motivada também pela qualidade do ensino público em Portugal. “Logo na pré-escola, nossa filha foi a uma oficina no Jardim do Palácio de Cristal, sobre os animais da Frida Kahlo. Uma experiência que me marcou muito e validou essa decisão”, afirma Leticia, que, no Brasil, trabalhava como psicóloga e, agora, é gestora de Recursos Humanos

De volta à sala de aula, Olívia não escondeu a felicidade. Assim que reviu os amigos, disse: “Gosto de brincar com vocês”. Vivendo em Portugal desde os dois anos, a estudante não teve dificuldades para se adaptar ao português europeu. Entre os momentos preferidos na escola, destaca os almoços com os amigos e as aulas de natação.

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Maysa Andrade perdeu 10 meses de estudo quando chegou a Portugal, mas conseguiu recuperar todas as matérias Arquivo pessoal

Período de transição

Ficar dez meses sem ir à escola foi um suplício para Maysa Andrade, 14, quando ela se mudou para Portugal há três anos. Atualmente no 9º ano num colégio de Paço d’Arcos, na região metropolitana de Lisboa, ela não conseguiu se matricular logo que chegou ao país. “Maysa terminou o ano letivo em novembro de 2021 nos Salesianos, em Salvador. As aulas lá começariam em fevereiro de 2022, mas, em março, ela veio para Portugal para ficar comigo”, conta Eliene Oliveira, 51, mãe da menina.

Eliene, que é separada do pai de Maysa, veio para Portugal há pouco mais de quatro anos, depois que seu salão de cabeleireiro fechou em Salvador, resultado da covid-19. “Era para minha filha chegar só em setembro de 2022, mas conseguimos um voo mais barato, por isso, ela viajou em março. Além disso, eu estava pagando R$ 2 mil por mês de mensalidade na escola dela, dinheiro que economizo, pois, agora, ela está em um colégio público", frisa.

Segundo Eliene, o tempo sem aulas teve um efeito negativo no rendimento escolar da filha. “Ela era muito boa em matemática e teve nota baixa no primeiro semestre. Quando chegou em casa, disse que não ia dar certo, que não tinha jeito. Tive que pagar um reforço”, conta, referindo-se a aulas particulares. Mas não foram só dificuldades. “Eu não era tão boa em ciências. Em Portugal, minhas notas são melhores”, relata Maysa.

A mãe da menina, que é cuidadora de idosos e cabeleireira, afirma que a adaptação de Maysa foi rápida. “No primeiro dia, ela estava muito ansiosa, apreensiva com a possibilidade de ser vítima de xenofobia. Mas as colegas a chamaram para estar com elas, aceitaram muito bem. No terceiro dia, ela já falava algumas palavras com sotaque português”, lembra.

Maysa diz que alguns professores são muito exigentes e conta que uma das atividades que ajudou a sua integração foi a dança, que faz parte do currículo de educação física. “Eu amo dança. Danço há três anos. Faço parte de um grupo com minhas colegas e nos apresentamos em festas da escola”, ressalta.

Bullying ou xenofobia

Os alunos brasileiros, mais de 88 mil pelos cálculos do Ministério da Educação de Portugal, são metade dos estudantes estrangeiros matriculados em colégios da rede pública, o que, no entender da coordenadora sociocultural e pedagoga Adélia Pauferro, que trabalha com a adaptação de crianças, exige atenção redobrada do Estado, dos pais e dos professores para que o processo de integração dos alunos ocorra sem traumas. “Na volta às aulas, é importante que os pais estejam atentos em relação a questões como racismo, xenofobia e bullying. Conflitos fazem parte do convívio escolar, e as crianças, na maioria das vezes, conseguem resolvê-los sozinhas. É fundamental permitir que elas se comuniquem, expressem seus sentimentos e aprendam a lidar com as diferenças”, diz Adélia, que vive há 25 anos em Portugal.

A especialista considera fundamental o investimento dos pais na relação com os filhos, o que vai permitir identificar o surgimento de alguma situação que coloque em risco as crianças e responder caso estas aconteçam. "É importante reservar pelo menos 15 minutos por dia para conversar com seu filho. Pode ser no caminho de volta da escola, enquanto prepara o jantar ou durante a própria refeição. Deve ser um momento em que as telas estão desligadas para poder ouvir com atenção. E que seja uma conversa sem julgamento, para fortalecer o vínculo e oferecer o suporte emocional que toda criança precisa", recomenda.

Recentemente, os dados indicam um aumento do número de casos de bullying e xenofobia nas escolas. Adélia indica como reagir, caso verifique que seu filho esteja sendo vítima. "Converse com a professora e relate o ocorrido. Se não houver resolução, procure a direção da escola ou o agrupamento responsável. Juntos, elaborem um plano de ação para lidar com o problema", sugere. Ela enfatiza que "educar é uma parceria entre família e escola".

Matéria atualizada em 15/9/2025, às 16h50, com alteração das declarações da psicopedagoga Adélia Pauferro.