Brasileira pesquisa saúde materna de imigrantes latino-americanas em Portugal

Ao sofrer de violência obstétrica no SNS (Serviço Nacional de Saúde), onde chegou a ouvir gritos de um médico, psicóloga desenvolve estudo acadêmico sobre cuidados à saúde física e mental da mulher.

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Vítima de violência obstétrica no SNS, a brasileira Mariana Holanda desenvolve estudo acadêmico sobre a saúde da mulher imigrante latino-americana Arquivo pessoal
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A psicóloga pernambucana Mariana Holanda, 41 anos, transformou a dor que viveu, ao sofrer de violência obstétrica, em Portugal, em tese de mestrado, em 2024, na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP). Ela conta que ficar grávida e ser atendida pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) — o SUS português foi algo doloroso e traumático. Já na primeira consulta, há seis anos, Mariana saiu de uma clínica da família, muito abalada. Ao contar que queria fazer um parto humanizado, dentro de uma banheira, só ouviu gritos assustadores do seu médico de família.

“Essa pesquisa partiu da minha experiência pessoal”, diz ela. “Em 2020, quando engravido, já na minha primeira consulta, quando vou falar com o médico o tipo de parto que eu gostaria de fazer, em que hospital gostaria de ser acompanhada [em Póvoa de Varzim], ele responde aos gritos que aquilo era um absurdo, que nós não éramos lontras para nascer dentro d’água”.

Mas a psicóloga, que faz parte do grupo de risco, por ter tido câncer na tireoide, em 2011, ainda viveria dias piores. Na 38.ª semana de gestação, que, segundo ela, foi completamente saudável, uma médica, de um hospital público, ao fazer um exame de toque, estourou a sua bolsa gestacional.

“Ali começou o meu terror, porque essa médica provocou uma ruptura no meu útero. Eu passei dias perdendo líquido e acabei precisando fazer um parto induzido e extremamente medicalizado. Eu e minha filha [que vai completar 5 anos] corremos risco de vida”, afirma Mariana, que se emociona ao relembrar o nascimento da menina. “Ela precisou de oxigênio e teve que ir para uma UTI Neonatal. Ficou entre a vida e a morte”.

Mesmo fragilizada, à época, a pernambucana resolveu que compartilharia a sua história e a de outras imigrantes latino-americanas para que não sofressem o que ela sofreu ao dar à luz. “Eu pensei que essa seria uma forma também de buscar justiça. Dividir não só a minha história, mas a de outras mulheres que, como eu, são brasileiras, imigrantes e racializadas”.

Corpo racializado

Ela explica que “todo imigrante tem um corpo racializado”. “É um corpo mais invisibilizado, um corpo que não pertence a esse território europeu”, avalia. “Então, eu pesquiso muito sobre isso para dar voz e trazer informação às mulheres. Durante a minha pesquisa, fui atrás de brasileiras que sabiam que tinham sofrido de violência obstétrica. Elas têm noção do que acontece com os seus corpos, elas sabem o que querem e o que não querem”, assinala.

A brasileira aponta ainda que a violência obstétrica pode interferir na vida sexual de um casal. “Escutei de muitas mulheres que a violência obstétrica teve impacto na vida sexual delas. E muitas ainda sofreram com enfermeiros homens”, afirma ela, que também cita a importância da saúde mental. “Quando eu estava na UTI Neonatal, não recebi em nenhum momento a visita de uma psicóloga ou de uma assistente social”.

Com o mestrado concluído, Mariana começou no mesmo ano o doutorado em Sexualidade Humana, também na Universidade do Porto, com a tese Encruzilhadas entre a Saúde e a Experiência, Assistência nos Cuidados Maternos de Imigrantes Latino-Americanas no Ciclo Gravídico-Puerperal.

Leis anti-imigração

“O meu projeto agora parte justamente do que eu ouvi dessas mulheres. Não só na gravidez, parto e pós-parto, mas também na perda gestacional e na interrupção voluntária da gravidez”, explica. “Como é a assistência oferecida para mulheres imigrantes latino-americanas no SNS? Será que a gente está conseguindo compreender e dialogar com essas mulheres? Será que elas têm acolhimento? Será que o SNS estava preparado para receber toda essa imigração?”, questiona.

Mariana não deixa de tocar na ferida das leis anti-imigratórias. “Portugal, por muito tempo, se vangloriou de ter uma política de imigração aberta e acolhedora. Quando eu cheguei ao país, em 2019, o discurso era: ‘queremos imigrantes’. Agora, o país se fecha. Por isso, precisamos saber: quais são as modificações do SNS com essas novas políticas de imigração?”, pergunta. “Temos que pensar juntas para oferecer uma saúde pública de qualidade às imigrantes latino-americanas”.