“Quem me conhece da campanha das Diretas Já! sabe o meu voto”, diz Fafá de Belém

Em setembro, Fafá de Belém, que fez 70 anos e comemora 50 de carreira, participa da celebração à Nossa Senhora da Nazaré, em Portugal. Ao PÚBLICO Brasil, ela ainda fala sobre política e etarismo.

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Fafá de Belém na comemoração dos seus 70 anos, num bar em Belém do Pará: cantora vem a Portugal para a festa de Nossa Senhora da Nazaré Divulgação
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A festa de Nossa Senhora de Nazaré, conhecida como o Círio de Nazaré, que acontece no segundo domingo de outubro, em Belém do Pará, no Norte do Brasil, reuniu no ano passado cerca de 2,5 milhões de pessoas. Pelas ruas da cidade, uma multidão devota acompanha à imagem peregrina. Das janelas das casas, vários fiéis acenam à Virgem Maria com lenços brancos, enquanto romeiros disputam um lugar na corda do Círio, um dos maiores símbolos da romaria. Esse cenário de emoção e fé faz parte da vida de Fafá de Belém desde que a cantora, que completou 70 anos, no último dia 9 de agosto, era criança.

“A gente acompanha o primeiro Círio ainda bebê, no colo de alguém. No segundo, já usa uma asinha de anjo”, diz a artista. E é o espírito dessa festa a maior procissão católica do mundo , que ela conta ao PÚBLICO Brasil que vai trazer em setembro para Portugal.

Na entrevista, pelo telefone, de seu apartamento em São Paulo, porém, Fafá não aborda só temas como religião e fé. Além de seu aniversário, que ela comemorou num bar em Belém, vestida de “princesa da Disney”, ela fala sobre os 50 anos de carreira, sobre o musical em homenagem à sua vida e obra que será apresentado ano que vem em Portugal e sobre a série Brega Story, do Globoplay, prevista para 2027, em que interpreta a dona de um bordel.

A cantora também não se omite quando o assunto é mais espinhoso, como as eleições no Brasil. “Quem me conhece da campanha das Diretas Já! sabe o meu voto”, afirma ela, que ganhou o título de musa do movimento popular que pedia a volta das eleições diretas no Brasil, em 1984.

Antes de participar do pleito brasileiro, no dia 4 de outubro, Fafá desembarca em Portugal em setembro com o projeto Encontro das Nazarés. A ideia é resgatar a tradição da celebração mariana, como ocorre em Belém, no Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, no alto da antiga vila de pescadores portuguesa, no distrito de Leiria, no Centro do país.

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A cantora no projeto Varanda de Nazaré, criado há 16 anos por ela, durante o Círio de Nazaré, em Belém do Pará Aryanne Almeida

“Vamos mais uma vez cruzar os nossos oceanos para falar de fé. E a fé nazarena é livre, não precisa ter religião, não precisa ser católico, ela é muito mais aberta. Debaixo do manto de Nazaré todos são acolhidos”, garante Fafá.

Há 16 anos, ela promove a Varanda de Nazaré, com convidados como artistas e personalidades, no segundo domingo de outubro, em sua cidade natal. “Para o paraense, esse é um momento sagrado", destaca. "E queremos resgatar essa pujança em Nazaré, com toda a comunidade envolvida no evento. Ano que vem, por exemplo, o manto vai ser bordado pelas mulheres de sete saias, que limpam e secam o peixe na areia da praia. Porque há mantos fabulosos, de vários lugares do mundo, existe um enviado até por um czar, mas queremos que isso volte para as mãos das mulheres de Nazaré, que isso seja resgatado com delicadeza e doçura”.

Ondas gigantes

Além da missa e da procissão, no dia 8 de setembro, Fafá comandará um pequeno sarau, como ela diz, a partir das 22h, nas escadarias da igreja. Ao seu lado, nomes da música portuguesa como Fabia Rebordão, prima de Amália Rodrigues (1920-1999), Jorge Fernando e Fernando Pereira. “O espetáculo será feito com canções mais religiosas, mas com outras que fazem parte do meu repertório também, compostas por autores populares”, avisa.

Mais conhecida pelos campeonatos de surfe de ondas gigantes, que acontecem a partir de outubro, na Praia do Norte, a cidade, acredita Fafá, a partir do projeto Encontro das Nazarés, também vai se tornar um destino turístico religioso mais visitado pelos brasileiros, como hoje é o Santuário de Fátima, ali ao lado.

“É importante saber que Nossa Senhora é uma só, nas suas inúmeras manifestações, mas que, do lado de Fátima, existe o Santuário da Nazaré, que, no século XVII, já agregava mais de 20 mil peregrinos, que iam de burro, a pé, de carroça, no lombo do cavalo”, frisa. “Então, existe ali um santuário fabuloso, que abençoa aquelas águas todas. Existe ali um vilarejo, que, graças a Deus, ainda não tem as praias privatizadas, que não se rendeu a isso”.

Celebração inclusiva

Para Fafá, o momento para iniciar o projeto não poderia ser mais oportuno por conta da quantidade de conterrâneos em Portugal. Cálculos do Instituto Nacional de Estatística (INE) apontam que o número de brasileiros vivendo legalmente no país mais que dobrou em quatro anos, passando de 278.109, em 2021, para 574.195, em 2025 — aumento de 106,5%. O que faz subir os casos de xenofobia também.

“Eu topei esse desafio de trazer de volta uma tradição, que há 26 anos não acontece em Nazaré, porque falar do resgate desse costume, num momento em que as pessoas estão cada vez mais divididas, separadas, como se não fôssemos todos humanos, é fundamental. A celebração é inclusiva”, enfatiza ela, que é neta de portugueses e tem um apartamento em Lisboa, desde 2018. “O mundo está muito dividido entre ‘nós e eles’. E está voltando um sentimento de revanchismo horrível, de perseguição da extrema-direita, sempre fortalecendo o preconceito, a exclusão, a não aceitação”, critica.

Novo DVD

Em dezembro, já de volta ao Brasil, a cantora, que completa cinco décadas de carreira, este ano, lançará o DVD Fafá 50, que foi gravado no Palácio dos Bares, em Belém. E ela é puro orgulho de sua história.

“Eu sou a menina que saiu de Belém com 18 anos e, um mês depois, virei a cantora mais conhecida do Brasil. Mas isso nunca fez com que eu me desviasse do meu caminho. Então, quero deixar o meu legado, principalmente para as mulheres e para as meninas da minha cidade. Eu falo sempre que a pessoa não precisa se ‘sudestinizar’ (ser da região Sudeste do Brasil) para existir. Você pode ser quem você é. Mas não é fácil. Eu não sigo ninguém, não sigo orientação de marketing. Tudo vai pelo meu coração, pela minha cabeça e pela minha intuição”, reflete.

A comemoração dupla — aniversário e carreira — ainda inclui Fafá de Belém – O Musical, que estreou no início deste ano, no Rio de Janeiro, com texto e roteiro de Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche, e produção de João Santana. No palco, várias atrizes dão vida a Maria de Fátima Palha de Figueiredo, nome de batismo da homenageada, em diferentes fases da sua vida, incluindo Lucinha Lins e Helga Nemeczyk.

Princesa da Disney

Uma das netas de Fafá, Laura Saab, 14 anos, divide com Clarah Passos a fase da cantora na infância. "A menina que eu fui ainda vive em mim", reforça a cantora, que provou isso na festa de aniversário de seus 70 anos. Para a celebração, ela se vestiu de “princesa da Disney” e reuniu amigos de longa data num bar em Belém. Mas havia outro motivo também.

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Fafá de Belém na festa de seus 70 anos: vestida como 'princesa da Disney' e bolo de três andares Divulgação

“Eu nasci numa cidade livre chamada Belém do Pará e nunca pertencia às elites. E, de uns tempos para cá, uma elite de direita, reacionária e burra começou a me perseguir muito, criando até fake news horríveis sobre mim. E eles achavam que me ofendiam ao dizer que eu estava velha. Mas uma das características da minha personalidade é o meu bom humor. Então, me vesti de princesa e fui festejar no Bar do Rubão, que é meu amigo", diz Fafá, às gargalhadas. "Também não gosto de festa que tem promoter e lista na porta."

E, como uma debutante, ela ainda fez questão de trocar de roupa três vezes durante o festejo, com direito a bolo de três andares. "Quando eu fiz 60 anos, a festa foi na minha casa, com o tema 'Os 60 Tons de Fafá', por causa do filme Os 50 Tons de Cinza. Cada um tinha de usar uma fantasia que provocasse a lascívia. Teve gente que veio de padre, teve gente que veio de puta. Foi muito engraçado", relembra.

E acrescenta: "Este ano, eu falei: agora vou fazer as fantasias da minha vida. Providenciamos um camarim, na garagem de uma vizinha, em frente ao bar, e comecei a noite vestida toda de branco e terminei com um vestido com a estampa de uma arara. Mas, perto da meia-noite, eu saí linda, loura e japonesa, com uma peruca rosa, uma coroa na cabeça e um vestido vermelho de seda pura com uma cauda enorme. Virei a princesinha da Disney".

Dona do bordel

Fafa tem motivos de sobra para rir e celebrar. A artista, que fez parte do teatro mais antigo de Belém, o Grupo Experiência, também voltou aos estúdios de TV este ano. Ela gravou a série Brega Story, do Globoplay, protagonizada por Marcos Palmeira, na sua cidade natal. Na trama focada na cultura do brega e do technobrega, com estreia prevista para 2027, ela interpreta a dona de um bordel.

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Neta de portugueses, a artista tem apartamento em Lisboa, desde 2018 Divulgação

"Faço uma mulher muito engraçada, que é meio um estereótipo meu. Ela põe ordem no puteiro, ela manda no delegado, manda no político, cuida das meninas, tudo ao mesmo tempo", ressalta Fafá, que, em 2003, interpretou a dona de um clube no filme As Garotas da ABC, de Carlos Reichenbach (1945-2012). "O Carlão, falando com o diretor musical, que era o Nelson Ayres, disse que queria para o papel uma mulher que entrasse e dominasse a cena, uma mulher tipo a Fafá de Belém", diverte-se.

Quando o assunto é a eleição no Brasil, marcada para o dia 4 de outubro, entretanto, Fafá muda o tom. “Eu já fui muito perseguida politicamente pela direita e pela esquerda”, diz. “A pessoa tem o direito de fazer a sua opção ideológica, mas não tem o direito da barbárie. Não tem o direito aos excessos. Não tem o direito de cercear o outro em nome de religião ou de política. E o que se vê hoje é o fortalecimento de tudo que afasta uma pessoa da humanidade, como racismo, etarismo, preconceito racial, gordofobia. E ninguém quer o retrocesso. Na última eleição, entenderam que não estávamos em uma luta entre esquerda e direita, estávamos em uma luta entre a luz e a escuridão”, finaliza.