Como os pequenos negócios brasileiros ganham impulso na Europa

Presidente do Sebrae Nacional, Rodrigo Soares, explica a dinâmica de Lisboa como base para levar pequenos negócios brasileiros à Europa, dos produtos agrícolas à tecnologia e inovação.

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O presidente do Sebrae Nacional, Rodrigo Soares, fala das relações entre Brasil e Portugal no Startup Summit, em Santa Catarina Divulgação
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Com a consolidação de eventos globais de tecnologia e a busca por novos mercados consumidores, a relação histórica entre Brasil e Portugal ganha contornos econômicos estratégicos cada vez mais intensos. Nesta seara, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (​Sebrae), em parceria estruturada com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (​ApexBrasil), transforma Lisboa em um dos dos principais entrepostos para a internacionalização de startups e micro e pequenas empresas brasileiras.

Em entrevista exclusiva ao PÚBLICO Brasil, concedida durante o Startup Summit realizado no final de agosto em Florianópolis, em Santa Catarina, o presidente nacional do Sebrae, Rodrigo Soares, detalha a dinâmica das missões empresariais, a relevância da trilha de maturação, o perfil dos pequenos produtores que rompem — literalmente — fronteiras e os impactos práticos do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia para a base produtiva nacional. O tema inovação e tecnologia, um dos setores demarcados com grandes trocar entre Brasil e Portugal não ficou de fora. Veja os principais trechos.

O Sebrae tem intensificado a sua agenda externa com foco em Portugal. Como se estruturou essa aproximação e por que o país se tornou um destino prioritário para os pequenos negócios brasileiros?
Brasil e Portugal são nações irmãs, unidas por laços profundos de língua, cultura e história. Essa familiaridade reduz barreiras iniciais de entrada que qualquer empreendedor enfrenta ao tentar internacionalizar um negócio. No entanto, a aproximação recente vai muito além do afeto histórico: Portugal consolidou-se como um polo europeu de tecnologia e inovação, impulsionado pela realização do Web Summit em Lisboa (a próxima edição é em novembro próximo). Identificamos aí uma oportunidade clara. O Sebrae não atua de forma isolada; construímos uma ponte sólida que utiliza Portugal como plataforma de lançamento para que a inovação brasileira alcance todo o continente europeu.

Na prática, como funciona a jornada de preparação dessas startups no Brasil e qual é o papel da ApexBrasil nessa conexão internacional?
Em Portugal, a gente tem atuado fortemente no Web Summit. Nós fazemos jornadas no Brasil inteiro justamente preparando essas startups para levá-las ao evento através da ApexBrasil, que é a nossa grande parceira a nível internacional. A dinâmica entre nós é muito bem definida: o Sebrae trabalha dentro da fronteira do Brasil, qualifica os pequenos negócios brasileiros e, através da Apex, nós levamos esses pequenos negócios para fora nas diversas missões internacionais. É uma construção contínua de maturação ao longo do ano que desemboca em Lisboa, consolidando Portugal como uma ponte estratégica do Brasil com toda a Europa.

Quem mantém a base física operacional em Lisboa e como se divide esse suporte aos empresários que chegam à Europa?
A estrutura física na capital portuguesa pertence à ApexBrasil, que mantém um escritório ativo em Lisboa. O Sebrae opera em total simbiose com essa base. A Apex, inclusive, tem raízes históricas no próprio Sebrae — ela nasceu a partir da nossa expertise institucional, era uma unidade nossa que depois se transformou e ganhou autonomia. Enquanto a Apex trabalha tanto para os pequenos negócios quanto para as grandes empresas, o Sebrae concentra-se na qualificação de base. Nós tracionamos os pequenos negócios nas 27 unidades da federação para que a Apex os acolha na sua sede em Lisboa e os impulsione nas agendas de negócios internacionais.

Qual é o peso real das micro e pequenas empresas na pauta exportadora brasileira nos dias de hoje?
Existe o mito de que apenas multinacionais e o agronegócio de grande porte exportam. A realidade dos dados mostra um cenário diferente: hoje, cerca de 40% das empresas que exportam no Brasil são pequenos negócios. Esse volume se dá de duas formas: pela exportação direta de produtos acabados ou pela inserção indireta, quando a pequena empresa atua como fornecedora técnica e de insumos na cadeia produtiva e logística das grandes companhias exportadoras. A nossa missão no Sebrae é ampliar essa base por meio de programas como o Programa de Qualificação para Exportação (PEIEX), garantindo que o pequeno empresário entenda de precificação internacional, conformidade regulatória e logística aduaneira.

O governo federal tem intensificado missões empresariais no exterior com o Ministério do Desenvolvimento e o Ministério das Relações Exteriores. De que forma os pequenos negócios foram incluídos nessas comitivas
Tradicionalmente, as delegações governamentais de alto escalão eram compostas quase exclusivamente por grandes conglomerados industriais. Mudamos essa lógica de forma intencional. Em articulação direta com a ApexBrasil e os ministérios do governo federal, o Sebrae passou a integrar de forma orgânica as comitivas internacionais chefiadas pela Presidência da República e pela diplomacia brasileira. Quando o país viaja para abrir mercados, nós levamos os pequenos empreendedores na bagagem. Essa presença conjunta democratiza o acesso a rodadas de negócios com autoridades comerciais e compradores de dezenas de países.

O que tem atraído o mercado internacional para os produtos e serviços desenvolvidos pelas pequenas empresas do Brasil?
O mundo quer conhecer o Brasil real, que é plural, biodiverso e culturalmente multifacetado. A população miscigenada e a diversidade dos nossos biomas geram soluções, serviços de tecnologia e produtos com identidade própria, que não encontram paralelo lá fora. O consumidor global valoriza cada vez mais a sustentabilidade, a narrativa de origem e a autenticidade — atributos que estão na essência dos pequenos negócios brasileiros, desde o artesanato sofisticado e a moda sustentável até a gastronomia regional e a tecnologia aplicada ao clima.

Diante de tensões geopolíticas globais e oscilações tarifárias em mercados tradicionais, qual tem sido a estratégia comercial do país?
O comércio global atravessa um período de reconfiguração econômica intensa. Mercados tradicionais, como os Estados Unidos, vivem oscilações tarifárias e disputas de protecionismo que geram instabilidade para quem depende de um único parceiro. A resposta estratégica do Brasil foi sair da zona de comodismo e diversificar ativamente os destinos de venda. Graças a esse esforço conjunto entre ministérios, ApexBrasil e Sebrae, conseguimos abrir mais de 650 novos mercados para itens do agronegócio e manufaturados em todo o planeta, alcançando saldos expressivos na balança comercial nacional ao distribuir o risco entre múltiplos continentes.

O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia entrou em fase de aplicação prática. Quais são os setores da base produtiva brasileira que já colhem frutos imediatos?
É uma grande oportunidade que começou a valer desde o dia 1º de maio. Os primeiros produtos a serem exportados sob esse novo marco foram as uvas dos pequenos negócios lá do interior de Pernambuco, na região de Petrolina, no Vale do São Francisco. Isso demonstra claramente que a redução de entraves não fica restrita aos grandes exportadores; ela atinge a ponta da produção agrícola e as cooperativas regionais, inserindo os nossos produtores diretamente nos corredores de distribuição do mercado europeu.

Qual é a dimensão econômica desse acordo e como o Sebrae e a Apex pretendem aproveitar esse mercado para os pequenos negócios?
A partir desse acordo, abriu-se um potencial de 700 milhões de consumidores em mais de 30 países reunindo os blocos econômicos. Diante dessa escala monumental, a gente tem levado os pequenos negócios para a Europa como um todo, através da ApexBrasil e participando ativamente das missões do governo federal. É uma via de mão dupla que vai ajudar muito não só o Brasil, mas também a Europa, dinamizando as trocas econômicas, atraindo inovação e gerando integração definitiva entre os nossos ecossistemas produtivos.