Brasileira deixou a bicicleta de doces em Natal e reinventou a carreira em Portugal
Renata Tavares começou vendendo doces numa bicicleta em Natal. Hoje ensina confeitaria em Portugal e transformou a própria experiência de imigrante em negócio, ao lado da família.
Antes de ser professora de confeitaria no Porto e reconhecida a nível nacional em Portugal, a brasileira Renata Tavares era a mulher que circulava por Natal, no Rio Grande do Norte com uma bicicleta decorada e cheia de doces. A ideia surgiu numa viagem a São Paulo, quando ela e o marido, César Augusto, conheceram a expansão das food bikes e food trucks no Brasil.
De volta a Natal, decidiram transformar a tendência em negócio e criaram uma food bike de doces, batizada de Doce in Bike. O brigadeiro virou o carro-chefe, mas a bicicleta levava outros sabores e passou a acompanhar food trucks de hambúrguer, massas e outros salgados pelos eventos da cidade.
Ainda no Brasil, o negócio havia crescido a ponto de Renata perceber que as pessoas já saíam de casa não apenas para ir aos eventos, mas para comprar os doces dela. "O fato de ver o meu trabalho sendo reconhecido, as pessoas saindo de casa para provar meus doces foi uma satisfação", conta.
E foi esse trabalho que Renata trouxe consigo quando se mudou para Portugal, há cerca de sete anos. A bicicleta ficou em Natal, mas a confeitaria continuou. E, apesar de o país e o negócio terem mudado, uma coisa permaneceu a mesma: ela continuou trabalhando por conta própria."Eu nunca coloquei nenhum currículo na rua em Portugal. Eu sempre trabalhei para mim", diz.
Doce in Bike
Renata, apesar de ter se formado em Serviço Social, já trabalhava como confeiteira desde 2014. Quando passou a viver com César, em 2016, a produção de bolos e doces entrou definitivamente na rotina dos dois. Viviam num apartamento pequeno, numa região central de Natal, capital do Rio Grande do Norte, e que não havia sido pensado para receber uma cozinha profissional. Foram adaptando o espaço conforme o negócio crescia.
Dali em diante, César passou a cuidar sobretudo do que acontecia fora do forno. "Minha contribuição foi tentar diminuir o esforço dela", explica. Compras, organização e preparação ficaram sob sua responsabilidade, para que Renata pudesse "meter a mão na massa", literalmente. Mesmo depois de acompanhar workshops e aprender algumas etapas, ele prefere não assumir a produção. "Não é o meu forte. Prefiro deixar com Renata, porque faz parte da identidade dela."
Em Portugal a organização e divisão de tarefas entre os dois seguiu igual. Renata continuou usando o nome Doce in Bike, mesmo sem a bicicleta. Era um recomeço, em um novo país e numa nova realidade de vida, clima e perspectivas profissionais. Só que, com o passar do tempo, ela entendeu que seriam necessárias adaptações. "Eu tive que reaprender tudo", frisa.
Massa fofinha
Foi preciso descobrir onde comprar os ingredientes e utensílios, e entender como os produtos se comportavam num clima muito diferente daquele a que estava acostumada no Nordeste. "Eu vinha de uma cidade muito quente e, quando cheguei aqui, era muito frio. Os doces se comportavam de outra forma. A manteiga endurecia no frio e os bolos tendiam a ficar mais secos. Comecei a perceber isso e fui fazendo vários testes. Tive de mudar a massa do meu bolo para deixar mais fofinha", explica.
As mudanças chegaram também ao sabor. Renata reduziu o açúcar dos recheios para se adaptar ao paladar português. "No Brasil, fazia coisas mais apelativas, com muitos recheios. Em Portugal, tive de enxugar bastante o meu menu e ter sabores pré-definidos", ressalta.
Ela acrescenta que, entre os clientes portugueses, o bolo de cenoura, as compotas e os sabores de chocolate estão entre os preferidos. Já os brasileiros costumam pedir mais coco e doces mais intensos. No entanto, um sabor que agrada aos dois públicos é o de creme quatro leites, com compota caseira de frutos vermelhos.
"O creme quatro leites é um creme composto por leite condensado, leite Nido, leite de coco e natas. Então fica suave, não é muito doce e a compota caseira também quebra ali, todo o doce", detalha. A diferença também aparece na relação com os clientes. Segundo Renata, os portugueses costumam lhe dar mais liberdade para criar. "Ah, eu confio em você, faça do seu jeito."
César sintetiza o processo de adaptação numa frase: "No Brasil, ela aprendeu muito, mas não tinhamos como saber lá como transicionar um produto para a Europa. Foi mesmo na raça." Para ele, essa evolução, da confeiteira que conheceu em Natal à profissional que hoje atua em Portugal, é "muito bonito de se ver".
Bicicleta ficou pequena
Renata foi entregar um bolo num restaurante sofisticado do Porto. Quando chegou lá, percebeu que havia alguma coisa fora do lugar. "O bolo estava incrível, estava tudo incrível, mas estava tão infantil", lembra. A bicicleta já não correspondia à imagem que queria transmitir.
"Não trazia aquele ar de sofisticação que eu queria passar, de uma pessoa com autoridade para falar sobre os próprios bolos", ressalta A percepção levou a uma mudança de identidade. "Eu queria ser reconhecida pelo trabalho, ser recebida como profissional, e não simplesmente como a menina que faz o bolo", enfatiza.
A partir dali, Renata passou a investir em se tornar uma referência. Além disso, assumiu o próprio nome como marca. "Deixei de ser a Renata da Doce in Bike para ser Renata Tavares, professora de confeitaria." Contudo, no início, a mudança veio acompanhada de insegurança. "Eu pensei: cheguei aqui, tenho que colocar os meus valores mais baixos, porque ninguém me conhece. Então as pessoas vão comprar porque os meus valores são baixos."
Com o tempo, percebeu que precisava mudar essa lógica. O ensino e a produção de conteúdo foi parte importante desse processo. Renata começou a gravar cursos online e passou a dar aulas presenciais de bolos decorados. "Na minha vida profissional, isso me abriu muito a mente", conta. Hoje, descreve esse momento como um grande divisor de águas.
O trabalho como professora e a reputação construída aula a aula também abriram outra porta: Renata tornou-se convidada recorrente da Praça da Alegria, da RTP, participando do especial de Páscoa do programa em abril de 2025 e voltando em dezembro do mesmo ano para os Duelos de Natal, comandados pelo chef Marco Gomes.
A mudança de identidade também alterou a maneira como ela passou a definir o próprio trabalho. "Hoje, ensino outras mulheres e homens não apenas a fazer bolos, mas a construir o próprio negócio e a crescer, de maneira que possam dizer que trabalham em casa e ainda assim entregam um trabalho de excelência", diz. Hoje, Renata afirma que a maioria de seus alunos são mulheres portuguesas, um resultado do qual se orgulha. "Eu também aprendo muito com elas", completa.
Negócio de Família
A família foi se juntando ao negócio aos poucos. A mãe de Renata, Kaká, já fazia salgados em Natal e, depois de visitar Portugal, decidiu se mudar para o país. Renata ficou com os doces, Kaká passou a produzir salgados brasileiros, e as duas começaram a indicar o trabalho uma da outra às próprias clientes. "Eu indico ela para as minhas clientes, e ela me indica para as clientes dela."
César continua sendo parte importante dessa engrenagem. Renata diz que o marido "embarca em tudo" o que pensa para a carreira. Ele resume a dinâmica dos dois em duas palavras, alinhamento e respeito. "Está tudo na cabeça dela", diz, sobre a maneira como Renata organiza o trabalho. "Todos nós temos limitações. Quando a limitação dela termina, vem a minha; quando a minha termina, volta para ela", destaca ele.
Essa divisão de tarefas em família precisou ser posta à prova na noite de Natal. Era 23 de dezembro de 2023 e faltavam 15 minutos para o dia 24 quando a filha do casal, Catarina, nasceu, cerca de dois meses antes do previsto. Era também a época de maior movimento para a confeitaria. Renata estava no hospital; César ficou em casa, diante de uma cozinha que, durante anos, estivera sob o comando dela.
As encomendas ainda não estavam todas prontas, mas ela havia deixado boa parte do trabalho encaminhada. Coube a marido fazer as finalizações e despachar os pedidos. "Graças a Deus, Renata já tinha deixado muita coisa preparada, e eu tive que fazer as finalizações e despachar", lembra ele. Foi a única vez, em dez anos de casamento, em que César precisou assumir sozinho a produção, o que não pretende repetir a não ser que seja novamente preciso.
Hoje, o negócio que começou numa cozinha de apartamento já pede outro espaço. Renata quer abrir um ateliê próprio no Porto, onde possa reunir a produção dos bolos, a retirada das encomendas e as aulas de confeitaria. O desafio, segundo ela, é encontrar um lugar que cumpra as exigências legais para receber uma cozinha e permita colocar o projeto em prática. "Não é simplesmente chegar aqui, pegar um ponto na esquina e abrir. Não é assim." Agora, falta encontrar o lugar onde a próxima fase da história possa começar.