Biografia de Manuela Nogueira, sobrinha de Fernando Pessoa, terá nova edição

Sobrinha do poeta português, a escritora Manuela Nogueira, 99 anos, terá nova edição da sua biografia lançada em maio na Casa Fernando Pessoa. Livro foi escrito por duas brasileiras.

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Manuela Nogueira afirma que estar atualizada é a coisa mais importante, porque viver só do passado não chega Mariana Portela
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Biografia da escritora e poeta Manuela Nogueira, escrita por duas brasileiras, chega à sua segunda edição e será lançada no dia 3 de maio, às 17h, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. A obra celebra quase um século de memórias e convivência com o tio poeta, com quem viveu momentos marcantes na infância. Aos 99 anos — completará 100 em novembro —, Manuela ainda vive na mesma casa da família em São João do Estoril, onde recebia as visitas de Pessoa, que, apesar da proximidade, sempre preferia regressar a Lisboa ao fim do dia. A presença de Manuela no lançamento é aguardada, mas ainda não está confirmada.

Centrada na vida e na obra de Manuela, que tem 23 livros publicados, a biografia foi escrita por Conceição Andrade, cardiologista e fundadora do Grupo Desassossego em Salvador da Bahia, e Carla Parisi, jornalista residente no Porto. A nova edição tem o mesmo conteúdo da primeira, lançada em novembro de 2023, mas ganha uma nova capa e reforça o gesto de homenagem à autora, cuja trajetória permanece pouco reconhecida em Portugal.

A primeira edição também foi lançada em Portugal, com um evento na Casa Fernando Pessoa que contou com a presença da própria Manuela. Assim como agora, os livros foram impressos na Bahia e serão trazidos para Lisboa por Conceição Andrade, que se dedica há anos ao estudo da obra do poeta português e ao resgate da memória da sua sobrinha.

"Ela é a única pessoa viva que sentou no colo, conversou e foi abraçada por Fernando Pessoa. Isso, por si só, já seria suficiente para despertar atenção. Mas Manuela também é uma poeta com obra própria, que merecia mais visibilidade", defende Conceição, em entrevista ao PÚBLICO Brasil. "O livro é uma biografia não convencional. Cada capítulo se abre com um poema escrito por ela, sempre em sintonia com os episódios retratados. Também reunimos imagens de objetos trocados com o tio — bilhetinhos, pequenos presentes deixados sob o prato do almoço", acrescenta.

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Manuela Nogueira, ao centro, com Conceição Andrade (à esquerda) e Carla Parisi (à direita), no lançamento da primeira edição da biografia, em 2023 Arquivo pessoal

A vida da sobrinha com o tio

A relação entre Manuela e Fernando Pessoa é descrita com delicadeza e emoção — ela tinha 10 anos quando o tio faleceu. "Ele me acompanhou pouco tempo, mas sempre foi muito próximo. Sua morte foi o primeiro choque da minha vida, e seu sentido de humor atravessou a minha infância. Tive, com ele, um convívio diferente, que deixou marcas profundas", conta.

Manuela lembra que, quando nasceu, a família atravessava um período de grande tristeza, marcado por mortes de pessoas muito próximas. "O tio Fernando quis, mais tarde percebi, aliviar-me, e de fato aliviou-me com a sua imaginação, a acompanhar-me em jogos infantis e tudo o que era um pouco diferente do convívio entre um tio e uma sobrinha."

Para ela, falar de memória é como ver uma fotografia muitas vezes desfocada. "Talvez seja quase um fenômeno eu poder expressar as minhas opiniões e a minha ainda clarificação do momento com facilidade, sem esforço, compreendendo as novas gerações", afirma Manuela. E acrescenta: "Estar atualizada é, para mim, a coisa mais importante. Porque viver só do passado não chega".

Exemplo da mãe

Manuela também recorda o exemplo da mãe, Henriqueta, irmã mais nova de Fernando Pessoa, que "morreu bastante idosa, mas com a cabeça ótima e atualizada — lia um livro da biblioteca inglesa todos os meses e estava ao facto das notícias". Segundo Manuela, essa postura ajudou a moldar a sua própria forma de ver o mundo: "Acho que herdei essa parte dela. E penso que o tio Fernando, que gostou tanto de mim, gostaria também de saber que consegui, apesar de muitas dificuldades, falar sobre ele."

"Com quase 100 anos, as pessoas do meu tempo já se foram. Então, o meu diálogo e os meus interesses têm de estar focados no agora. E eu sei que nem sempre é fácil, mas por sorte minha, minha mãe também era muito esclarecida até muito tarde", afirma Manuela.

Além de Lisboa, Conceição Andrade pretende lançar a obra no Gabinete Português de Leitura da capital baiana, onde projeta deixar parte do acervo de livros e documentos de Manuela. "É uma forma de perpetuar esse legado, criar um nicho de pesquisa sobre ela, sobre a sobrinha que era mais do que sobrinha: era autora, testemunha e, sobretudo, memória viva de Fernando Pessoa."