Adoçantes, memória e o risco de concluir demais
Estudo observa associação entre adoçantes e declínio cognitivo, mas não prova causalidade. Manchetes apressadas podem induzir conclusões erradas.
Um subestudo da coorte ELSA-Brasil, publicado na Neurology, gerou polêmica: maior consumo de adoçantes esteve associado a declínio mais rápido de desempenho cognitivo — sobretudo, memória e fluência verbal — ao longo de oito anos de seguimento em mais de 12 mil adultos. Spoiller: associação não é causa. É aqui que muita manchete de jornal derrapou.
Explico: o estudo é observacional. Os autores analisaram os adoçantes em conjunto (aspartame, sacarina, acessulfame-K, eritritol, xilitol, sorbitol e tagatose). O tratamento estatístico dos dados ajustou os achados por idade, sexo, escolaridade, tabagismo, atividade física, ingestão calórica e condições metabólicas como IMC, diabetes e hipertensão — fatores confundidores. Ainda assim, permanece a possibilidade de fatores confundidores residuais.
Em palavras simples isso quer dizer que quem consumiu mais adoçantes pode também ter tido, em média, um perfil de saúde e de comportamento que já o coloca em maior risco de piora cognitiva (por exemplo, dieta com mais ultraprocessados, sono ruim, sedentarismo, flutuações glicêmicas). Nessa leitura, o adoçante funciona como marcador, não, necessariamente, como causa. Por isso, trata-se de um estudo gerador de hipóteses: descreve um sinal relevante, mas não estabelece nexo causal entre adoçantes e perda de memória.
Diante das manchetes equivocadas, houve quem concluísse que "melhor seria voltar ao açúcar". Não foi isso que o estudo avaliou. Ao contrário, há literatura associando excesso de açúcar — especialmente bebidas açucaradas — a piores desfechos cerebrais e maior risco de demência. Trocar adoçante por açúcar é, plausivelmente, uma decisão pior do ponto de vista metabólico e, possivelmente, neurológico.
O que fazer na prática? Três ações simples. Primeiro, não transformar correlação em causalidade: reportagens responsáveis evitam esse salto. Segundo, reconhecer que o estudo reforça um recado já conhecido sobre o paladar hiperdoce que colonizou a rotina — inclusive quando "sem calorias". Terceiro, aplicar uma regra que vale para metabolismo e cérebro: reduzir o grau de doçura do dia a dia. Priorize água (com ou sem gás), café e chá sem adoçar, iogurte natural e fruta inteira em vez de sucos; quando precisar adoçar, use menos. Para pessoas com diabetes, o controle glicêmico segue central; dá para planejar uma redução do "sabor doce" sem migrar para o açúcar?
Há também uma lição para quem comunica ciência. Estudos observacionais bem feitos são valiosos, mas têm limites inerentes ao método. Ajustar por muitas variáveis melhora a estimativa, mas não elimina viés. Dieta autorreferida tem erro de medição; perdas de seguimento podem distorcer resultados. O avanço real envolve replicação em outras coortes, medidas objetivas de exposição (biomarcadores), desfechos padronizados, mecanismos plausíveis e, quando possível, ensaios clínicos pragmáticos.
Um elogio final: os pesquisadores brasileiros comunicaram seus achados com cautela, como pede a boa ciência. Pena que parte da cobertura tenha apressado a conversa, vendendo manchetes causais onde havia um sinal a ser testado. Até lá, menos é mais: menos doçura, menos ultraprocessados, mais comida de verdade — e mais cuidado ao interpretar manchetes.
Referências
1. Goulart AC, et al. Artificial sweetener consumption and cognitive decline: ELSA-Brasil. Neurology. 2025.
2. Pase MP, et al. Sugar- and artificially sweetened beverages and risks of stroke and dementia. Stroke. 2017.
3. Zhang Y, et al. High sugar intake and cognitive decline: systematic review. Nutrients. 2022.