Advogado carioca troca o terno e a gravata pelo kimono e o jiu-jítsu em Portugal
Após mais de uma década na advocacia, Beto Serra deixou o Rio de Janeiro e recomeçou a vida em Portugal. Hoje, ele comanda uma academia de jiu-jítsu, em Cascais.
Carioca, advogado por mais de uma década e praticante de jiu-jítsu há 30 anos, Roberto Serra decidiu mudar radicalmente de vida. Trocou o terno, a gravata e os processos pelo kimono e o tatame. Hoje, os alunos o conhecem mais por Beto Serra, que deixou o Rio de Janeiro e atravessou o Atlântico para recomeçar a vida em Cascais, Portugal, onde comanda uma academia e ministra aulas da arte marcial japonesa.
A decisão amadureceu com o tempo. O ritmo intenso da advocacia, marcado por audiências em tribunais, prazos de processos e alto nível de estresse, já não fazia mais sentido. “Comecei a cansar daquela vida. Quando meu filho nasceu, as prioridades mudaram e eu quis fazer algo que realmente gostasse”, conta Beto. O jiu-jítsu, que sempre foi um hobby, passou, então, a ocupar o centro de seus planos.
A vontade de morar fora do Brasil também pesou. Em janeiro de 2018, Beto viajou para Lisboa para disputar um torneio europeu de jiu-jítsu. A experiência foi decisiva. “Gostei muito da cidade. Quando voltei para o Brasil, cheguei em casa e falei para a minha esposa: vamos para Portugal”, relembra. Poucos meses depois, a família estava de malas prontas, em direção ao Velho Continente.
Em janeiro de 2019, quatro meses depois de desembarcar definitivamente em Portugal, ele abriu a própria academia, a Carlson Gracie Cascais. “No Rio, eu já treinava na academia Carlson Gracie, em Copacabana. Quando me mudei para Cascais, resolvi dar continuidade a essa história”, explica.
História além das medalhas
Faixa preta há 18 anos, Beto Serra compete atualmente na categoria Master 3, peso-pena (até 70 quilos). Apesar de ter sido bicampeão carioca e brasileiro ainda na adolescência, ele afirma que a essência da sua trajetória no esporte vai além das medalhas. “A minha história com o jiu-jítsu é muito mais ligada ao que aprendi e às amizades que fiz. Isso suplantou a parte competitiva”, afirma.
Hoje, a academia em Cascais reúne 120 alunos. Aproximadamente 70% são crianças, que podem iniciar no esporte a partir dos quatro anos de idade. “O jiu-jítsu ajuda muito na disciplina, no respeito e na formação das crianças. Os pais nos procuram bastante, e temos feito um trabalho muito positivo”, diz.
Abrir e manter um negócio em Portugal, no entanto, não foi simples. A concorrência é grande e a pandemia da COVID-19 trouxe desafios adicionais. “Foi um trabalho de formiguinha, passo a passo. Durante a pandemia, lutei literalmente para manter a academia. Mas sempre acreditei que, quando reabríssemos, voltaríamos mais fortes”, relata.
Redução do estresse
Para Beto, os benefícios do jiu-jitsu vão além da defesa pessoal e da condição física. “Os aspectos psicológicos e o autoconhecimento são fundamentais. No tatame, você aprende a superar desafios, a continuar lutando mesmo quando está em desvantagem”, afirma. Ele destaca ainda o papel do esporte na redução do estresse. “Você sai do treino melhor do que entrou.”
Com seis anos de funcionamento, a academia já faz parte da vida da família. “Minha academia é como uma filha. Tenho um filho de 10 anos e a academia, minha filha de seis”, ressalta, emocionado. O plano é crescer com cautela. “Penso, sim, em expandir, mas vamos ver o que o futuro reserva”, frisa.
A mudança de país, de profissão e de estilo de vida consolidaram uma virada em que, do direito ao jiu-jítsu, do Brasil a Portugal, Beto Serra construiu um novo caminho guiado por uma escolha clara: viver do que acredita. “O jiu-jítsu se molda ao que a gente precisa. É um esporte que praticamos para nos aperfeiçoar”, resume.
Processo de evolução
Recentemente, o atleta conquistou o vice-campeonato em um torneio realizado em Portugal, organizado pela Federação Portuguesa de Jiu-jítsu Brasileiro (FPJJB) e disputado em Odivelas, na área metropolitana de Lisboa. Apesar do resultado expressivo, ele trata a competição como parte do processo de evolução. “Tenho o treino na academia, o nosso dia a dia, e a competição está ali para ajudar a gente a melhorar”, afirma.
O campeonato também rendeu um episódio marcante para Beto. O filho Bernardo, apaixonado por futebol, foi incentivado pelo pai a disputar uma competição de jiu-jítsu. “Preparei um discurso para ele sobre coragem e sair da zona de conforto. Depois, percebi que esse discurso servia para mim também”, conta. Após seis anos sem competir, Beto decidiu se inscrever no mesmo torneio e terminou em segundo lugar.
No dia seguinte, foi a vez de garoto subir ao tatame. Ele venceu a luta, conquistou o título e entregou a medalha de ouro ao pai. “São histórias que o esporte proporciona e que ficam para sempre na memória da família”, finaliza Beto Serra.