Brasil oferece até €5,1 mil a editoras portuguesas para publicar autores brasileiros
Fundação Biblioteca Nacional abre edição 2026 do programa que já levou quase 1.600 livros brasileiros a 70 países. Editoras portuguesas e dos demais países CPLP têm processo especial.
Há anos, a agente literária Lúcia Riff faz um certo tipo de chamada telefônica que, segundo ela própria, nunca deixa de ser mágica: avisar um autor brasileiro de que o livro dele vai ser publicado em outro país. "Você poder ligar para o autor e dizer: estou confirmando sua ida para a Polônia. É muito lindo", contou, durante o lançamento da edição 2026 do Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior, realizado em junho no Rio de Janeiro.
Graças a um programa de incentivo, chamadas telefônicas como essa poderão se repetir com mais frequência a partir de agora. A Fundação Biblioteca Nacional (FBN), em parceria com o Instituto Guimarães Rosa, do Ministério das Relações Exteriores (MRE), abriu as inscrições do Edital no 1/2026 do programa, que aceita candidaturas até 13 de setembro. Podem se inscrever editoras estrangeiras de qualquer país, incluindo as de língua portuguesa, interessadas em traduzir, publicar e comercializar obras de autores brasileiros já lançados no Brasil.
A possibilidade alcança diretamente o mercado editorial português. Segundo comunicado enviado pela Embaixada do Brasil em Lisboa, editoras sediadas em Portugal podem concorrer ao programa nas mesmas condições que as de outros países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), com a vantagem de que a proximidade linguística ajuda a reduzir os custos de tradução e lançamentos de autores brasileiros.
O edital prevê duas frentes de atuação: uma, aberta a editoras de qualquer país e idioma, e outra destinada especificamente às editoras da CPLP, voltada à comercialização de títulos brasileiros nos mercados de língua portuguesa.
Trinta e cinco anos de ponte cultural
O programa existe desde 1991, criado pela Política de Internacionalização do Livro. Em 35 anos, já viabilizou quase 1.600 projetos de tradução e publicação em cerca de 70 países e mais de 50 idiomas, entre eles, inglês, francês, russo, chinês, húngaro, ucraniano, turco e croata. Somente em 2025, recebeu quase 250 inscrições e apoiou 133 projetos em 35 países e 27 idiomas.
Segundo o titular da Secretaria de Formação Artística e Cultural, Livro e Leitura (SEFLI), Fabiano Piúba, o perfil dos autores apoiados também vem mudando: cresce a proporção de mulheres, pessoas negras e indígenas entre os beneficiados, com destaque para novas frentes linguísticas, como o chinês e línguas locais moçambicanas, entre elas, o sena, o changana e o macua.
Para esta edição, a Fundação Biblioteca Nacional lançou uma nova plataforma digital de inscrição, que substitui o processo em papel e reúne metadados para facilitar a gestão das candidaturas. Editoras selecionadas para traduções inéditas ou novas edições podem receber entre 1 mil e 6 mil dólares (858 e 5,1 mil euros). Já para reedições, o apoio pode chegar a 3 mil dólares (2,6 mil euros), valor pago em duas parcelas, a primeira após a assinatura do Termo de Compromisso com a FBN e a segunda, após a comprovação da publicação da obra traduzida.
Tradutor é coautor
No lançamento do edital, o presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Marco Lucchesi, definiu o programa como ferramenta de projeção internacional da cultura brasileira. "O tradutor é coautor desse processo, a figura invisível cuja visibilidade se dá pela sutileza a partir da qual se elaboram os textos que, no fundo, realizam o diálogo entre as nações, a diplomacia do livro e o soft power de que a cultura brasileira é protagonista", afirmou.
O diretor do Instituto Guimarães Rosa, o diplomata Marco Antonio Nakata, lembrou o exemplo de Grande Sertão: Veredas, romance de Guimarães Rosa publicado em 1956 e considerado por muitos tradutores uma das obras mais difíceis de ser transportada para outros idiomas, ou até mesmo "intraduzível".
A primeira tradução para o inglês, de Harriet de Onís e James L. Taylor, foi publicada em 1963 sob o título The Devil to Pay in the Backlands e tornou-se a principal porta de entrada do romance no mundo anglófono. Segundo Nakata, traduções da obra podem exigir mais de uma década de trabalho para recriar o ritmo, a linguagem e os neologismos de Rosa, "preservando a alma do sertão". "É a prova de que nenhuma travessia é impossível quando há cuidado, tempo e apoio", disse.
Mais de seis décadas depois da primeira versão em inglês, uma tradutora volta a enfrentar o mesmo desafio. A australiana Alison Entrekin passou mais de dez anos trabalhando numa nova tradução da obra, publicada sob o título Vastlands: The Crossing. A nova versão chega ao mercado em janeiro de 2027, pela Simon & Schuster nos Estados Unidos e Canadá e pela Bloomsbury no Reino Unido e na Austrália.
Entrekin, que também traduziu autores como Clarice Lispector e Chico Buarque, precisou recriar neologismos como "nonada", a primeira palavra do romance, e lidar com uma sintaxe que rompe deliberadamente com os padrões convencionais da língua inglesa.
Literatura está entre as melhores
O escritor Itamar Vieira Junior, autor de Torto Arado, romance traduzido para mais de uma dezena de idiomas, também participou do evento e destacou o crescimento da presença brasileira nas prateleiras internacionais. "Vejo, a cada dia, mais brasileiros com traduções e obras muito interessantes. Nossa literatura está entre as melhores, certamente, e se a gente encontra essa repercussão hoje lá fora, a gente deve agradecer a esses programas, que têm contribuído", afirmou.
Para o diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura (MinC), Jéferson Assumção, o programa é "fundamental para posicionar nossa literatura em novos mercados ao redor do mundo", resultado de um trabalho conjunto entre os ministérios da Cultura e das Relações Exteriores, com execução da Fundação Biblioteca Nacional.
Como funciona a candidatura
As propostas para as editoras passam por duas etapas de avaliação: uma primeira análise documental, seguida do exame de mérito pela Comissão de Seleção, que considera critérios como a relevância da obra, sua contribuição para a difusão da literatura brasileira, a viabilidade do projeto editorial e a qualificação do tradutor.
Editoras contempladas assumem contrapartidas: tiragem mínima de 500 exemplares para primeiras edições e de 300 para reedições, além da obrigatoriedade de incluir a frase e os logotipos oficiais de apoio na obra publicada. O resultado da seleção será publicado no Diário Oficial da União em 24 de novembro de 2026, e a liberação dos recursos depende da disponibilidade orçamentária da Fundação Biblioteca Nacional para o exercício.