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Escritora e psicanalista
“Nossos corpos também são pátria”, reza um verso da canção Esquinas, do multiartista português Dino D’Santiago, filho de imigrantes cabo-verdianos.
Não é à toa que os ditadores odeiam os artistas. Talvez a arte, ou o tipo de arte que mereça esse nome, seja uma arma capaz de matar não os fascistas, mas o ideário do fascismo.
O dia da nossa morte não se encerra na geometria quadrilátera dos calendários. Cada vez que marcamos o xis num quadradinho, é mais uma morte e mais uma vida. Mais uma chance que nos espera.
Num planeta habitado por oito bilhões de humanos, o desafio é inventarmos meios de travar a nossa autodestruição, mesmo cientes das nossas contradições.
Somente em 2024, os imigrantes contribuíram com 3,6 bilhões de euros para a Segurança Social, cinco vezes mais que o valor que receberam. Por que forjar a falácia de que eles são sanguessugas?
A vulnerabilidade física e psíquica das crianças justifica que a Lei responsabilize a família, a sociedade e o Estado pela proteção à infância.
Diante da brutalidade do real, a única via de elaboração possível é simbólica. Há que se debater, falar, buscar alternativas à estratégia falida de manter o Estado em guerra contra os cidadãos.
Parece um clichê pensar nas Letras ou na literatura como uma solução para um dos maiores problemas humanos: a dificuldade de tolerar e conviver com a alteridade, matriz dos piores ódios e guerras.
A alegria e a resistência de uma festa brasileira que conquistou espaço no calendário cultural de Lisboa.
Medo e covardia no Congresso: a PEC da Blindagem revela deputados fugindo da Justiça — resta ao povo escolher a luta ou a fuga.
Vista da Terra, a Lua de Sangue vai me assombrar como a cabeça de um zuca cortada a mando do senhor João — metáfora emblemática de um ódio assassino que parece crescer na pequenez da miséria humana.
Enquanto não passarmos o slogan fascista para o plural, respeitando a existência de vários deuses, pátrias e famílias, ele vai ser manter como um tripé que sustenta o ódio à diferença.
Não é difícil constatar que o narcisismo patológico é um forte sintoma social contemporâneo. O mito de Narciso, afogado na própria imagem, se renova no advento da selfie.
É tensa e intensa a relação linguística entre brasileiros e portugueses: uma corda bamba entre a diferença e a semelhança, entre a distância e a proximidade, entre o estranhamento e a identificação.
Talvez muitos de nós tenham se esquecido. Mas o que nos distingue dos bichos é nossa relação com outros humanos, permeada pela linguagem e pelos laços sociais.
Os bebês palestinos não são terroristas do Hamas. Não existe justificativa aceitável para esse massacre. Existe, sim, a ambição de homens ricos e poderosos por mais riqueza e poder.
O mais vergonhoso para mim, imigrante brasileira, é a postura dos meus conterrâneos que votaram no Chega, achando que são a elite de um sistema migratório de castas, em que os párias são os outros.
Numa epifania pluralista, saudamos caboclos, pretos velhos, crianças, povo da rua, todo panteão de orixás que atestam a maravilha do encontro entre expressões de fé oriundas de três continentes.
A solução democrática, sempre desafiadora, é buscar vias de diálogo que respeitem a complexidade das sociedades, apesar da inevitável tensão suscitada pelos conflitos ou discordâncias.
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