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Linguista
Mexer na língua é mexer em quem somos. Unificar o português à força pode ser tão violento quanto renomear o Golfo do México por capricho político.
Vejo o carnaval na Língua Portuguesa não apenas como uma palavra camaleão que muda seu sentido com o correr dos anos sem mudar a sua essência, mas também como um modo de ser dessa língua tão rica.
É a antropofagia que nos une, a nós, brasileiros. A antropofagia, como realidade cultural, é um convite à solidão, em uma sociedade que reforça distâncias reais ou imaginárias.
Vivemos em um mundo em que as ações e as palavras parecem não ter qualquer consequência futura, a não ser provocar engajamentos.
Se queremos que a língua portuguesa seja a ponte entre seus muitos milhões de falantes, precisamos pensá-la organicamente, como uma realidade plural e questionadora.
Olhamos para a frente e, apesar das nuvens cinzentas, insistimos na esperança. Ah, essa esperança e a sua relação tão controversa com esta nossa língua.
Os hábitos linguísticos espelham a realidade social, revelando como a violência, o medo e a desigualdade moldam a forma de nos comunicarmos.
A construção da língua portuguesa se deu entre o atraso e o moderno, entre o profano e o sagrado, sempre rompendo fronteiras para conciliar os vários opostos.
Há, de fato, muita ignorância no (des)conhecimento que falantes desta nossa língua têm em relação à sua complexidade, história, uso e necessidade de preservação. Mas o pior erro ainda é o preconceito.
Talvez se tenha tornado um traço de nossa cultura: deixamos o português solto. Temos dificuldades com as regras.
Fabricar uma língua para superar preconceitos estruturais corresponde a tentar que o esperanto supere o inglês como língua internacional.
Falar português americano é também partilhar de uma herança comum construída de muitos modos, que nem sempre foram nobres ou éticos, é verdade, mas que traduzem um modo de ser e de estar no mundo.
O português é a língua oficial de nove países espalhados pelo mundo. Formamos uma família, nem sempre muito unida, é fato, mas família.
Assustam-me os burocratas da utopia de uma língua portuguesa que nunca existiu: única, inflexível, sem sentimentos. São rigorosos com aquilo que não conhecem e apenas evidenciam a própria ignorância.
A língua portuguesa falada no Brasil apresenta um caráter mais conservador do que a falada em Portugal. No Brasil, preservaram-se melhor os elementos do português antigo, que chegou pelas caravelas.
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