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Psicanalista e jornalista
No silêncio do ciano ao anil, existe um azul anterior às nossas fronteiras.
Antes de atravessar a fronteira do outro, convém tirar os próprios sapatos. Porque talvez ninguém compreenda verdadeiramente o chão que pisa enquanto acreditar que ele lhe pertence por inteiro.
Todos nós somos grãos de um solo rico e que possamos, cada vez mais, germinar.
As plataformas digitais deveriam ser um espaço divino de comunicação, criação e aprendizado, mas muitos as usam para fabricar mentiras e destruir o que temos de melhor em nós. São covardes.
Pertencimento não é um documento emitido por um Estado, uma autorização de residência ou um contrato de trabalho. É um sentimento silencioso, construído lentamente, que não aparece nas estatísticas.
A mesma herança cultural que transformou o futebol brasileiro em arte ajuda a explicar o atual e confuso labirinto migratório entre Brasil e Portugal.
O futuro do português não será escrito apenas em Portugal — nem apenas no Brasil. Será escrito na conversa contínua entre todos aqueles que decidiram habitá-lo.
Não se trata de um testemunho. É sobre uma constatação: a de que existe uma diferença entre aquilo que perseguimos e aquilo que, de fato, pode nos preencher.
Entre a ironia e a generalização: quando a crítica a uma instituição confunde pessoas e estruturas.
O Brasil não se tornou relevante apesar da origem colonial. Tornou-se importante porque deixou de ser só um território descoberto, explorado e colonizado para se tornar autor da sua rica miscigenação.
Quando o poder, a política e o dinheiro condenam uma nação por meio de seus líderes.
No contraste entre as cores dos jacarandás que colorem a cidade e a azáfama subterrânea do metrô de Lisboa, a poesia surge como uma representação da vida milhares de imigrantes que vivem em Portugal.
A exposição da artista Ruth Aiko Asawa, no Museu Guggenheim, em Bilbao, me fez pensar que, como imigrantes, também somos formas dentro de uma outra forma.
Como metáfora da imigração, as glicínias representam a adaptação ao estrangeiro e a necessidade do “outro” para se apoiar.
Vivemos em democracia, todos temos o poder de agir, de corrigir o que vemos, o que está errado, e de tentar encontrar respostas e soluções.
O problema não está no que chega de fora. O problema está na incapacidade de reconhecer que, muitas vezes, o que chega de fora não vem para romper. Vem para temperar.
Acolher quem chega não é apenas um gesto de generosidade. É reconhecer que a imigração não empobrece necessariamente um território. Muitas vezes, ela o amplia.
Dois copos de lealdade, cinco mãos cheias de respeito, três colheres cheias de risadas, duas latas de escuta e um barril de afeto. Massa pronta e forno aquecido. Respeito, escuta, riso, afeto.
Se, para Freud, a fé nasce do desamparo, para o imigrante ela se torna também uma forma de reorganizar o pertencimento. É nesse ponto que o pensamento pode se expandir.
O problema é quando já não sabemos como estamos sendo vistos ou se estamos sendo vistos. E, então, o medo aparece. Não como dramatização, mas como percepção.
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