O horror situado entre o hóspede e o invasor

Sentimentos são os meios mais efetivos para aumentar o tensionamento entre as comunicações. E o contemporâneo comprova sermos cada vez mais guiados por imagens quando somos conduzidos pelas tensões.

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O comunicado na página inicial data de 12 de outubro de 2023: o hotel está fechado, sem previsão de receber visitantes. Portanto, cinco dias após o ataque que levou Gaza a uma escalada de violência e guerra com impacto nas relações internacionais e entre intelectuais, artistas, instituições e universidades. The Walled of Hotel, como o próprio nome sugere, foi construído próximo ao muro entre Israel e a Palestina por Banksy, em 2017, no que chamou de a pior paisagem do mundo.

Decorado com obras provocativas, o hóspede é incentivado a percorrer a região e vivenciar Jerusalém e não subir no telhado ou apontar canetas com laser vermelho. Entre salas decoradas em rococó europeu exagerado e quartos parecidos com acampamentos militares improvisados, o artista desafia a lógica do turismo e de como passamos a consumir tudo sem qualquer pudor, inclusive o horror.

Dois anos antes, Banksy ergueu próximo a Bristol, Inglaterra, um parque de diversões às avessas, com 10 mil metros quadrados. O Dismaland era composto por dez obras próprias e de quase 60 outros artistas, que não souberam antes ser um projeto mais amplo. No oposto ao proposto pelos parques temáticos, as atrações convidavam o visitante a apreciar o horror, ressignificando fábulas e personagens dos parques da Disney, a partir de comentários críticos. O parque macabro trazia o castelo icônico de Magic Kingdom abandonado e em ruína; a carruagem-abóbora de Cinderela capotada com a princesa dentro, aos flashes de paparazzi; barcos com refugiados em piscina que não os levariam a qualquer lugar; entre tantas outras obras.

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Durante os meses de funcionamento, Dismaland (no letreiro da entrada, Dismal and) realizou shows com artistas, inclusive o Pussy Riot, grupo punk feminista russo perseguido e com integrantes presos e condenados por Putin, atraindo milhares de visitantes. Com isso, superou importantes exposições e bilheterias, como a da Tate Modern. Após encerrado, os materiais utilizados na estrutura e em algumas obras foram levados a Calais, no norte da França, para construir alojamentos para refugiados e imigrantes ilegais, abandonados e perseguidos pelo governo.

O que o hotel e o parque revelam é uma outra ordem de identificação com os discursos. Trocamos os valores próprios das ideias e argumentos pela espetacularização dos discursos. A dimensão imagética tornou-se determinante, contudo, diferente da proposta publicitária do século passado, em que uma mensagem mantinha algum propósito. Agora, a experiência precisa ser objetificada enquanto sentimento, adquirida, personalizada, instagramável, compartilhada, inserindo-nos parte da fotografia e do vídeo. Com isso, os discursos não importam, são dissolvidos pela banalidade do selfie.

As duas obras instalativas de Banksy também se colocam críticas a essa experimentação reduzida dos discursos, por isso, o artista nunca realiza apenas o que se imagina. Usa-as para fins inesperados, apropria-se da euforia dos frequentadores ao consumi-las como imagens para suas redes sociais. É quase inevitável querer conhecer, vivenciar e dividir as experiências oferecidas pelas obras. Mas é evitável simplificá-las e banalizá-las. Só que, para isso, teremos de frequentá-las como quem reconhece o mundo mais confuso e perigoso, e não como turistas no furacão do caos.

É exatamente a perspectiva turística do caos, com a justificativa de ser aceitável a necessidade do apocalipse para um renascimento glorioso, que faz surgir o vídeo divulgado por Donald Trump de uma nova Gaza, em 26 de fevereiro. Reconstruída com inteligência artificial, apresentada então como resort de luxo, a animação traz cenas de exotização da cultura árabe, estátuas de ouro dele mesmo, um drink junto a Benjamin Netanyahu à beira da piscina e Elon Musk sorridente, orgulhoso pelas ruas, a fazer chover dinheiro, saborear comidas locais, enquanto se ouve que Donald chegará para libertá-los. Assim mesmo, íntimo, amigável e pelo primeiro nome.

Sua proposta não é difícil de entender: a libertação dos paletinos virá com a construção do Trump Gaza e o fim da disputa pelo território. Ignora os princípios religiosos que levam as duas culturas o requererem terras sagradas; ignora as diferenças políticas e ideológicas entre os povos e as várias camadas de poder; ignora a perspectiva humanista, em um estado profundo de horror; e apresenta a solução pela pílula dourada da exploração neoliberal, naquilo que lhe importa de imediato: gozo e alienação. Hotel e parque de diversões.

Como fizera Banksy, foi dado ao Trump Gaza qualidade de imagem, apresentado como possível, espetacularizado enquanto realidade, com essa nova qualidade de selfie, de existir junto oferecido pelas novas tecnologias. Ao estarem no vídeo, Trump e Musk, a informação dada aos seus apoiadores é absorvida de forma diferente, inconsciente, pois, se é imagem, se é passível de ser imaginada, então é provável de existir um dia.

Esse é o princípio fundamental da espetacularização: dar ao inexistente a qualidade de sonho, de utopia, algo a ser desejado. A representação confirma aquilo inventado como real, subverte a constituição da imagem, torna-a algo nem utópico, nem distópico. Diverte para esconder valores e princípios perigosos, ao nos fazer acostumar a ele.

Por isso, precisa ser entendida como outro regime linguístico, no qual a distorcida passa a ser aceita, faz-se verdade e desenha outra manifestação de realidade. Para Bifo, filósofo italiano, esse regime precisa ser compreendido no que provoca pelo terror: a colonização da imaginação pela dominação dos espaços de atenção. Desatentos, não reagimos. A subjetividade se perde na própria impotência, e só resta o desejo traduzido por alguém.

O problema está no fato de os desejos assimilados impedirem o bem-estar mais amplo, dominarem nossa relacionação com as ideias e os discursos, transformarem nossas emoções e sentimentos em espécies de objetos. Sentimentos, sabe-se, são os meios mais efetivos para aumentar o tensionamento entre as comunicações. E o contemporâneo comprova sermos cada vez mais conduzidos por imagens quando somos conduzidos pelas tensões.

Enquanto escrevo esse texto, o presidente americano volta ao Congresso para a primeira fala de seu novo mandato. A imagem, sempre ela, é mais específica e significativa do que ele tenta dizer e distorcer com adjetivos e superlativos excessivos: metade do parlamento levanta-se e o aplaude, enquanto a outra se cala e permanece sentada, durante mais de uma hora.

Um mundo dividido, sem caminho, perdido entre extremos e tentativas. Em estado de horror, conformado a duas utopias divergentes e em confronto explícito. Uma radicaliza sua manipulação, a outra quer fugir de servir às manipulações. Não por acaso, a orientação para os democratas foi não produzir um espetáculo com suas reações, pois as imagens só serviriam ao republicano.

Não deu certo. O deputado Al Green agiu, gritou, interrompeu, recusou permanecer limitado a ser parte de uma imagem, decidiu ser real. E foi, de forma inédita, expulso. Suas intervenções não sobreviverão como contraponto, pois são palavras. Já sua reação, essa sim, uma vez deformada e descontextualizada, rodará como imagem nas redes sociais pelos próximos dias, até os memes se esgotarem. Enquanto não percebemos, pois não experienciamos devidamente, entretidos que estávamos com a espetacularização, o significado de um parlamentar de 77 anos, negro, ser escoltado por seguranças brancos para fora do Congresso, simplesmente por discordar dos absurdos que ouvia.

Sugestões de leituras

> El Optimismo Cruel, de Lauren Berlant. Editora Caja Negra, 2020.

> O Sentido da Existência: Por Um Novo Realismo Ontológico, de Markus Gabriel. Civilização Brasileira, 2020.

> Depois do Futuro, de Franco Berardi. Ubu Editora, 2019.

> La Política Cultural de la Emociones, de Sara Ahmed. Universidade Nacional Autonoma do México, 2018.