Agora, dão fuzil à favela. Em 1500, eram espelhos aos povos originários
Dar algo que aparente poder e prestígio sempre foi tática do colonizador branco para roubar a dignidade de um povo.
Os jovens soldados do tráfico foram crianças criadas pelo vento, emprestando suas mães para criar o filho das madames da Zona Sul do Rio de Janeiro. Agora, os filhos das babás pretas comemoram a chacina dos irmãos das favelas da mesma forma que se comemora um título dos clubes da Gávea ou de Laranjeiras no Maracanã, enquanto suas mães de leite choram ao encontrar sem vida os filhos na mata entre o Morro do Alemão e a Vila Cruzeiro.
Há 40 anos, Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer e Leonel Brizola criavam os CIEPs, um conceito de escola pública baseado no projeto da escola parque do educador Anísio Teixeira. Entre 1983 e 1991, foram construídas 500 escolas, que ofereciam ensino público integral das 7h da manhã às 19h para crianças das comunidades. Elas recebiam na escola, para além do aprendizado, assistência médica, dentária e espaço para lazer e convívio. Infelizmente os CIEPs foram descontinuados por políticos que, até hoje, querem perpetuar o apartheid social no Brasil.
Ao invés de escolas, constroem-se presídios e cemitérios, como bem alertou Darcy Ribeiro décadas atrás.
Meus meninos
// Eu deixo meu menino
lá no morro
pra criar vista mar
o filho da madame //
// Venho de trem,
choro pra cachorro,
saudade corta a pele
feito arame //
// Entre meu menino
e o menino da madame,
tamanha diferença.
O dela brinca na areia
ouvindo o mar,
o meu ouve som de tiro
quando a polícia lá morro vai entrar //
// O meu menino, da madame,
estudou em escola particular.
Hoje, faz faculdade
no país de outro lugar //
// O meu menino lá do morro,
morreu na mata,
perto de uma cascata
que agora brota água
toda vez que eu chorar //