AIMA paga 237,2 mil euros para empresa gerir e-mails a que não responde

Agência para migrações assinou contrato com a Synchro — Serviços de Outsourcing, que estabelece prazo de dois dias para que mensagens sejam respondidas. Imigrantes dizem que respostas não vêm.

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AIMA fecha contrato no valor de 237,2 mil euros para empresa gerir sua caixa de e-mails, mas imigrantes afirmam que suas mensagens não são respondidas Nuno Ferreira Santos
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Desde maio deste ano está em vigor um contrato firmado entre a Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) e a empresa Synchro — Serviços de Outsourcing no valor de 237,2 mil euros. Segundo o documento de número 40/2026, ao qual o PÚBLICO Brasil teve acesso, a Synchro assumiu a responsabilidade por gerir todos os e-mails recebidos pela AIMA por meio do endereço geral@aima.gov.pt, usado pelos imigrantes para pedidos de informações sobre processos relacionados a autorizações de residência em Portugal.

A despeito de o contrato já estar em vigor há dois meses, imigrantes que precisam da AIMA asseguram que nenhuma das mensagens enviadas ao órgão público é respondida. O contrato com a Synchro, porém, estabelece que as "mensagens devem ser respondidas em, no máximo, dois dias". E, caso esse prazo seja descumprido, a empresa terá de pagar uma multa à AIMA no valor de 2 mil euros. Se o não cumprimento do contrato se tornar frequente, a multa poderá, na pior das hipóteses, atingir até 30% do valor dos serviços contratados.

O mineiro Maxwel Antonio de Souza, 48 anos, diz que já se cansou de tentar contactar a AIMA por meio de e-mail. "Não adianta. A agência não responde as mensagens nem seus funcionários atendem o telefone", reclama ele, que é empresário do ramo da construção civil e está esperando pela renovação de sua autorização de residência desde julho de 2025.

As queixas são reforçadas por Jackson Benete, que pediu a renovação do documento que garante a sua permanência em Portugal em setembro do ano passado e não consegue se comunicar com a AIMA para entender o que está se passando. "O sistema diz que estou devendo à Segurança Social e à Autoridade Tributária, mas não tenho qualquer débito com essas instituições", assegura.

Caixa cheio

Nem mesmo os e-mails relacionados a decisões judiciais são respondidos pela AIMA, assinala a advogada Elaine Linhares. "Há processos de 2024 com decisão judicial que não andam porque a AIMA não se dá ao trabalho de responder as mensagens que enviamos. É um tremendo desrespeito", afirma.

Para ela, que é especialista em questões imigratórias, de nada adianta a AIMA pagar 237,2 mil euros a uma empresa para gerir e-mails se os imigrantes continuam no escuro. "Agora, lançaram um tal formulário de contato, que também não funciona. Quando acessamos o serviço, logo vem a mensagem de que está com erro", frisa. Elaine acredita que a AIMA está jogando dinheiro fora.

A contratação da empresa para "gestão da caixa de correio eletrônico institucional da AIMA" foi aprovada pelo Conselho Diretivo da AIMA em 4 de novembro de 2025. A agência viu o seu cofre engordar a partir de setembro de 2024, quando começou o processo de regularização de imigrantes por meio da Estrutura de Missão, com 20 postos espalhados pelo país.

Durante o período em que a Estrutura de Missão funcionou — foi extinta em dezembro do ano passado — a AIMA faturou 101 milhões de euros. Após cobrir todos os custos operacionais, de 39 milhões de euros, a agência lucrou 62 milhões de euros, conforme balanço apresentado à época pelo ministro da Presidência do Conselho de Ministros, António Leitão Amaro.

O que diz a AIMA

Em nota enviada ao PÚBLICO Brasil, a AIMA ressalta que os processos de aquisição referidos inserem-se no trabalho contínuo de reforço de sua capacidade operacional e digital. "Este trabalho inclui, entre outras medidas, o desenvolvimento e a implementação de soluções orientadas para a simplificação de processos, a melhoria do atendimento e da qualidade da informação disponibilizada, bem como para o reforço da eficiência interna", frisa.

A agência ressalta, ainda, que a contratação de apoio à gestão da caixa de correio eletrônico institucional visa assegurar um tratamento mais célere e eficaz do elevado volume de comunicações recebidas por esta via. "Em 2025, a AIMA recebeu mais de 2,4 milhões de comunicações por correio eletrônico, das quais cerca de metade correspondiam a mensagens duplicadas ou spam. Considerando as comunicações únicas, a AIMA respondeu a mais de 1 milhão", informa.

E acrescenta: "Como é público, o contrato relativo à gestão da caixa de correio eletrônico foi celebrado em 19 de maio de 2026. A equipa afeta à prestação do serviço foi constituída a 1º de junho de 2026, seguindo-se-lhe a formação aplicável e o início efetivo de funções a 1º de julho". Segundo a AIMA, "este reforço tem permitido aumentar a capacidade de tratamento das comunicações recebidas, reduzir o volume de mensagens a aguardar resposta e responder a um número de mensagens superior ao das novas entradas, algo que já está, efetivamente, a acontecer".

A Synchro, pelo documento assinado com a agência para migrações, está proibida de se pronunciar por questão de sigilo. O contrato assinado entre o órgão público tem validade de 12 meses e é pago em parcelas mensais, de acordo com a comprovação dos serviços prestados.

Este texto foi atualizado com o posicionamento da AIMA.